Admirável

Eu, uma simples mulher com 30 anos de profissão, me regozijo quando encontro colegas assim. Sabem tudo, conhecem todas as situações inerentes à realidade escolar, têm sempre razão, não têm dúvidas e desconhecem, portanto, o que é o “stress”! São seres perfeitos. São, sobretudo, pessoas felizes! Que bom poder ser-se assim, digo eu, ….ter esse dom, essa capacidade de tudo intuir e deduzir, tudo saber sem margem para dúvidas! Dúvidas? Mas que dúvidas? Pessoas “perfeitas” não têm dúvidas. São Entes Superiores, quase divinos a quem nós, criaturinhas “estressadas e com tantas incertezas”, devemos prestar como que vassalagem…

No mínimo devemos curvar-nos diante de titânicas figuras…tão nobres e tão sábias, com imensos corações plenos de amor pelo próximo, de compreensão pelos outros que lhe são iguais até nas diferenças.

Me regozijo quando me deparo com tão elevado padrão de comportamento…imaculado, diria mesmo!

Um exemplo que todos devíamos seguir e depois…passados alguns dias(poucos)…cometer SUICÍDIO!!!

WHITEBALL

[Eu até andava caladita, “apagada”, mesmo…mas há certas coisas que me dão nos nervos. E quando assim é…]

Uma cama adiada!

Andei toda a semana doente. 

Andei toda a semana com  arrepios, febre, náuseas, nariz a pingar, dor de garganta, dores de cabeça, arrepios de novo…mas sempre a adiar uma ida à cama…que uma mulher tem compromissos para com os alunos e há que os cumprir.

Agora sim, estou de cama. Merecidamente de cama a tentar recuperar de uma rinofaringite aguda.

Mas a semana foi particularmente difícil (gente mal educada , mal formada, gente amorfa…) e hoje dou comigo a pensar que se tivesse ficado de cama logo na 3ª feira tinha escusado uns dias de sofrimento e de agonia.

Depois dou comigo a pensar : “Isabel…quantas semanas, quantos meses, quantos anos  assim vais aguentar, hein? Já deste tanto à Escola, já tiveste a tua quota-parte de desilusões, já tens as tuas doenças…que só irão agravar-se, sabes disso…Já passaste por tanta Reforma no Ensino, já tiveste de te adaptar a tantas “novidades”, já serviste de professora, confidente, assistente social e estás sujeita… ao menor incumprimento, ou ao menor protesto a levar “porrada da feia”. Tens noção disso, não tens, Isabel?”

“Isabel, Isabel” – pensei- ” tu sabes que a Vida são 2 dias… sabe-lo melhor que muitos; tu sabes que tudo é tão efémero…Então por que te martirizas e levas para casa os problemas que te afligem na escola? Por que suportas a doença, as dores só para não faltares a umas aulas? Por que não vês as tuas sobrinhas crescer e te enfias nos livros e planificações a preparar aulas que poucos querem ouvir?  Por que te cansas a preparar estratégias e atividades quando muitos alunos não querem aprender…querem apenas as classificações, querem boas notas, só isso mas… sem esforço….”

“Por que te calaste naquela reunião (enquanto o teu coração batia descontroladamente…de nervoso e revolta) e durante duas horas presenciaste mais uma revelação de total e absoluta inutilidade elevada ao quadrado e foste depois, cansada,  para casa fazer noitada a corrigir testes?”

“Isabel…vai ser assim o teu dia a dia até aos 66 anos, sabes disso? Na melhor das hipóteses não terás de ver aumentadas de 40 para 45  horas de trabalho semanal o teu horário de trabalho. Na melhor das hipóteses não terás um processo disciplinar por teres dado um “berro” mais alto que ofendeu “O Colega”…na melhor das hipóteses não deteriorarás a tua saúde  a ponto de teres de ficar sujeita aos mandos e desmandos de juntas médicas….

Isabel…a este ritmo e com esta pressão, na melhor das hipóteses chegarás aos 66 anos, mulher! Tens consciência disso, não tens?”

Não há nada como estar de cama para colocar as ideias em dia…com clareza e objetividade.

Um desabafo…pois os alunos são os principais prejudicados….

Eis  o Governo a convidar-nos a mentir.

Há já alguns anos que não vou ao Centro de saúde nem ponho os olhos no meu médico de família.

E isto por simples e compreensíveis motivos:

– Se desenvolvo uma gripe grave e necessito, com urgência, de oxigénio e de um injetável para me facilitar a respiração vou a uma clínica. (Graças a deus ainda posso)

– Se necessito de um teste do sono …vou a uma clínica do sono. Passo a noite ligada a elétrodos…enquanto noutra sala um técnico monitoriza os meus diversos estágios de sono….coisa que penso ainda não ter chegado ao Centro de Saúde….de Mangualde.

– Se os meus ossos quase me poem louca de dor …corro, em atroz sofrimento, a um ortopedista.

É ele quem me pede radiografias, é a ele que as mostro. É ele quem me prescreve a medicação, é ele quem, posteriormente, me faz o tratamento no consultório.

Do mesmo modo é ele quem me trata quando os meus polegares “não obedecem”… e me doem com’o caraças. Quando não consigo pegar numa caneta, pegar num prato, fazer um nó nos atacadores, calçar umas peúgas, escrever um SMS, conduzir e, ainda que em repouso, me torturam com dores…é ao meu ortopedista que me dirijo para me tratar ou proceder a uma cirurgia.

Mas o meu ortopedista, apesar de saber o quanto sofro, diz que não pode passar-me um atestado médico: depois de retirar líquido de um joelho e subsequentemente injetar no dito um medicamento para diminuir a inflamação e as dores diz-me que só pode recomendar gelo e repouso. Ora…gelo e repouso são incompatíveis com o ir dar aulas, certo?

Então o que é que o governo recomenda? Que vá ao Centro de Saúde pedir um atestado da minha triste situação clínica a um médico que não sabe, não viu, não tratou, não poderia tratar pois que não é especialista…que ateste que estou mal e preciso de repouso durante 1 dia ou 2.

Se isto não é falsear a Verdade…dizei-me, por favor, o que raio é!!!

Isto é fazer de conta…é mentir! Mas é assim que o Governo quer. À semelhança do que tem feito aos Portugueses…quer que sejam os Portugueses, nos seus atos do quotidiano a mentir.

Não seria mais sério ser o médico que me trata a passar o comprovativo da minha incapacidade temporária para comparecer ao serviço? Se ele é quem me diagnostica e me trata por que diabo há de ser um médico do Centro de Saúde a passar tal documento?

Ah… mas se é de suspeita que se trata… que haja fiscalização…. Dir-me-eis que é por isso que tem de ser um médico do Centro de Saúde? Repito- fiscalização.

Agora convidarem-me a participar numa mentira fazendo de conta que quem me tratou foi o meu médico….isso não.

As principais vítimas: os alunos

Vou-me arrastando e piorando o meu estado de saúde até “dar o berro”! E então em vez de os alunos ficarem 2 ou 3 dias sem aulas …depois ficam 20 dias ou mais. Atrasa-se sim todo o seu processo de aprendizagem…mas…não é isso que o governo quer? Quantos mais alunos com baixo aproveitamento melhor – dá-lhe “armas” para poderem implementar o ensino privado alegando que só assim os alunos podem aprender e que os “outros” são social e academicamente desadaptadas…Ólarilo-lé!!!

Ainda na passada 5ª feira me senti mal numa aula: os alunos estavam a fazer prova escrita e eu tinha de andar a circular pela sala. As dores eram tantas que me senti enjoada primeiro, e prestes a desfalecer, depois. Penso que tinha até alguma febre. Foram os alunos…eles mesmos, quem deram conta de que eu estava a ficar branca e me pediram que me sentasse.

Agora tenho aqui dezenas de provas escritas para corrigir…se as minha mãos me permitirem pegar numa caneta…Ontem tentei debalde. Hoje vou tentar novamente…

…estou  a ver que lá para o Verão terão as classificações das provas…. (por este andar…ou melhor…desandar!)

Na ordem do dia

Na ordem do dia:

O mau tempo, novos cortes salariais, números assustadores no que toca à emigração de pessoas de todas as idades, acidentes nas estradas, urgências hospitalares em risco de rutura e a demissão de Nuno Crato foram as notícias que, hoje, ao passar os olhos pelos jornais, captaram a minha atenção.

Cavaco Silva? Sim…mas o que podemos esperar de Sua Ex.ª, o nosso Presidente da República, hein? Podemos esperar o quê concretamente?

Não vou desenvolver cada um dos assuntos acima.

Vou apenas centrar a minha atenção em dois ou três….

Quanto ao mau tempo só nos resta prevenir situações de risco. A prevenção é meio caminho andado para evitar acidentes.

– A emigração: tive imensas pessoas das minhas relações forçadas a abandonar o país. Dói a quem parte e dói a quem fica. Se todo o futuro é incerto o dos emigrantes sê-lo-á ainda mais. Porque enfrentam hábitos desconhecidos, contatam com pessoas diversas numa língua que nem sempre entendem; muitos sujeitam-se a viver em “cubículos” sem aquecimento, sem água, sem eletricidade…e passam dias à procura de trabalho. Passam fome, são humilhados…

As qualificações académicas e a experiência de quase uma vida de trabalho em nada, ou quase nada, ajudam a encontrar um meio de subsistência.

A integração é difícil…a sobrevivência uma aprova de resistência: não admira que muitos não façam conta de regressar.

– Depois, ah…depois temos o SNS: urgências e todo o sistema de saúde a “dar o berro”, se me permitis a expressão. A falta de verbas que conduz à falta de pessoal qualificado mina todo o sistema. Quem pode ainda se “safa” no privado (é isso que o nosso governo quer)…mas quem não pode vai morrendo…ou aos poucos, ou subitamente (que também é ideal para este governo nosso já que, assim deixa, o paciente,  de ser um encargo para o estado).

O Prof. Marcos António de Oiveira disse um dia:

Sempre tive comigo, que o principal investimento a ser feito por uma administração pública é no ser humano, escolas melhores, professores melhores, pessoas melhores. Investir na saúde pública de forma coerente, pessoas bem tratadas, tendem a fazer o mesmo pelo seu amigo, vizinho ou apenas conhecido. Tornar o investimento no humano é acrescentar uma preciosa pitada de sensibilidade na sociedade, e precisamos mais do nunca ser mais humanos.”

 E eu pergunto: temos investido no ser humano???

Para ler com atenção…

“Michael Sandel preconiza uma outra posição: para ele a questão da justiça distributiva é absolutamente determinante já que constitui uma condição imprescindível para a plena afirmação de uma sociedade democrática. Para este autor o problema da desigualdade coloca-se muito para além da questão da eliminação da pobreza absoluta – tem que ver com a necessidade de preservação de uma noção comum de cidadania. Se o fosso entre ricos e pobres se acentuar excessivamente as pessoas tenderão a viver vidas cada vez mais separadas, pondo em causa a permanência de um espaço público imprescindível à convivência democrática. Uma sociedade em que os ricos vivam em condomínios fechados, recorrendo a hospitais privados e enviando os seus filhos para escolas elitistas, e onde os pobres recorram à oferta pública nas mais diversas áreas deixa de ser uma sociedade verdadeiramente democrática. O que Michael Sandel diz é algo de uma enorme actualidade: a absoluta mercantilização da vida gera desigualdades relativas que põem em causa o essencial do próprio património democrático liberal do Ocidente.”